Álcool: do berço da civilização ao cotidiano da sociedade moderna

Somente nos Estados Unidos, onde os recursos têm maior e melhor aproveitamento para a sociedade, estima-se que os cofres públicos dediquem uma parcela de U$ 185 bilhões a cada ano voltados para reparar os danos deixados pelo álcool, como despesas médicas, nos crimes decorrentes de consumo excessivo da substância, perda da produtividade nas empresas e acidentes de todos os tipos. Os dados são do National Institute on Alcohol Abuse and Alcoholism (Instituto Nacional de Combate ao Alcoolismo dos EUA).

Segundo o instituto norte-americano, todo o ano aproximadamente 2 milhões de pessoas buscam ajuda para combater o vício no álcool. Consumir álcool em excesso pode danificar seriamente o fígado, rins, coração, cérebro e o sistema nervoso central. Danos esses que, na sua grande maioria, são irreversíveis.

Ilustração: Pawel Kuczynski

A caminhada do CH3CH2OH ou C2H6O (etanol)

“…é uma substância orgânica obtida da fermentação de açúcares, hidratação do etileno ou redução de acetaldeído, encontrado em bebidas como cerveja, vinho e aguardente, bem como na indústria de perfumaria. No Brasil, tal substância é também muito utilizada como combustível de motores de explosão…”

O álcool teria surgido ainda na pré-história, junto à aparição da agricultura e invenção da cerâmica. Desde aí, foram atribuídos diferentes significados e funções para o consumo da bebida. Numa passagem do Atigo Testamento, Noé teria tomado tanto vinho após o Dilúvio que tirou suas roupas e em seguida desmaiou. Alguns momentos depois seu filho Cam o encontrou “tendo à mostra as suas vergonhas”.

Na antiguidade oriental do Egito e Mesopotâmia, os papiros revelam detalhes da produção e comercialização da cerveja e do vinho. Acreditavam que as bebidas fermentadas eliminavam os germes e parasitas e que poderiam ser usadas como medicamentos, especialmente na luta contra os males provenientes das águas do Rio Nilo.

No período greco-romano, embora a bebida fosse bastante consumida em celebrações sociais e religiosas, o consumo abusivo do álcool já era severamente censurado pelos dois povos – Grécia e Roma. Na Idade Média, a produção e consumo de vinho e cerveja cresceram muito mesmo, bem como a sua regulamentação. Mesmo assim, o consumo excessivo e bebedeira eram considerados pecado pelas instituições religiosas governantes.

Grécia Antiga o dramaturgo grego Eurípedes (484 a.C.-406 a.C.) menciona nas Bacantes duas divindades de primeira grandeza para os humanos: Deméter, a deusa da agricultura que fornece os alimentos sólidos para nutrir os humanos, e Dionísio, o Deus do vinho e da festa (Baco para os Romanos).

Na idade moderna da Renascença surge a figura dos cabarés e tabernas, destinados ao consumo da bebida em determinados horários. Seria esse, portanto, o embrião do entretenimento que conhecemos hoje em pubs, bares e casa noturnas. Ainda neste período, estes mesmos locais passam a ser fiscalizados, além de estipulados horários de funcionamento.

No século XX

Foi em 1952, com a primeira edição do DSM-I (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) que o consumo descontrolado de bebidas alcoólicas passou a ser tratado como doença.

Em 1967, o conceito de doença do alcoolismo foi incorporado pela Organização Mundial de Saúde à Classificação Internacional das Doenças (CID-8). Mais adiante no tempo os problemas relacionados ao uso de álcool foram classificados em uma categoria mais ampla de transtornos de personalidade e de neuroses.

Os problemas foram divididos em três categorias sendo elas dependência, episódios de beber excessivo (abuso) e beber excessivo habitual. A dependência de álcool foi caracteriza pelo uso compulsivo de bebidas alcoólicas e pela manifestação de sintomas de abstinência após a cessação do uso de álcool.

No século 20, alguns países como a França passaram a estabelecer um limite mínimo para o consumo de álcool, determinando a maioridade de 18 anos. Inicia-se aí, uma forma de frear a aproximação desta droga das fases em que a personalidade, geralmente, ainda não está totalmente formada, bem como responder legalmente por seus atos.